29/07/2026
RESUMO: A clínica psicanalítica contemporânea testemunha uma importante transformação na forma como o sofrimento psíquico se apresenta. Se, no início do século XX, Freud descreveu predominantemente pacientes organizados em torno do conflito entre desejo, repressão e formação sintomática, observa-se atualmente a emergência de manifestações marcadas por sentimentos de vazio, fragilidade narcísica, perda de sentido existencial, dificuldades na constituição identitária e incapacidade de sustentar vínculos duradouros. O presente artigo propõe uma reflexão teórica acerca da denominada "clínica do vazio", articulando as contribuições de Sigmund Freud, Jacques Lacan, Donald Winnicott, André Green, Heinz Kohut, Christopher Bollas, Byung-Chul Han e Alain Ehrenberg. Parte-se da hipótese de que o vazio contemporâneo não representa uma nova estrutura psicopatológica, mas uma modalidade historicamente situada do mal-estar na cultura, produzida pelas transformações sociais, econômicas e culturais ocorridas nas últimas décadas. Conclui-se que a clínica atual exige do psicanalista uma escuta capaz de reconhecer sofrimentos que frequentemente antecedem a constituição do conflito neurótico clássico, deslocando o eixo interpretativo da repressão para as falhas na constituição do self, do narcisismo e da simbolização.
Palavras-Chave: Psicanálise; Narcisismo; Desamparo; Vazio psíquico; Subjetividade contemporânea.
Artigo publicado para EBPF em 29 de Julho de 2026. Artigo aprovado pelo comitê científico pela EBPF no dia 27/08/2026. Texto escrito por Esp. Andreia Daluia